• Luisa L.

Resenha: O médico e o monstro

Ficha técnica

Título: O médico e o monstro [original: Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde]

Autor: Robert Louis Stevenson

Editora: L&PM Editores (L&PM Pocket vol. 267)

Edição: 1ª (2002); reimpressão de agosto de 2017

Ano: 2017

Tradução: José Paulo Golob, Maria Angela Aguiar e Roberta Sartori

Revisão: Renato Deitos e Jó Saldanha

ISBN: 978-85-254-1123-5

Nota: 5.0/5.0


Observação: o texto contém spoilers pertinentes ao clímax da história; caso não seja do seu agrado, retorne depois de ter lido a obra. ❤


 

Olá, fantasminhas!


O livro escolhido para inaugurar as resenhas do blog foi O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson. Um clássico que abriu precedente para milhares de outros enredos envolvendo a dualidade do ser humano e que é usado como referência cultural até hoje. Jekyll e Hyde, né?



Tamanha é a popularidade do livro que, confesso, comecei a leitura já ansiosa pela revelação final. Eu sabia, em termos gerais, o ponto principal do enredo e seu grande clímax [Spoiler: Mr. Hyde e Dr. Jekyll são, na realidade, a mesma pessoa], o que, em um primeiro momento, mais atrapalhou do que ajudou; eu não sabia quando, como e onde a revelação ocorreria, e muitas passagens interessantes do livro ficaram sem marcação alguma por causa da minha pressa.


No entanto, nada poderia ter me preparado para a sensação catártica que tive ao ler o último parágrafo e fechar o livro (e dormir, porque já passava de uma da manhã).





A essência da história normalmente chega aos leitores distorcida pelo uso popular da expressão “Jekyll e Hyde”, bem como especulações a respeito de estados dissociativos de personalidade (ou dupla personalidade, como chamavam antigamente) quanto à dicotômica figura de Henry Jekyll. Então qual não foi minha surpresa ao perceber que entrei esperando um homem preso entre uma personalidade boa e outra má, mas recebi uma alegoria sobre hipocrisia e dissimulação.


O livro é, em grande parte, contado em terceira pessoa, com foco no ponto de vista de Mr. Utterson, amigo de longa data do Dr. Henry Jekyll e, também, seu advogado. Ele é descrito como sendo “um homem [...] frio, restrito e embaraçado no falar; retraído nos sentimentos; magro, comprido, aborrecido, melancólico e, apesar de tudo, amável.” Em outras palavras: um homem que prefere a própria companhia à de outros, abrindo exceção apenas para os amigos mais íntimos e pelos quais nutre grande carinho.


Mr. Utterson, assim como Mr. Lanyon (que aparece logo no segundo capítulo), é amigo de longa data de Henry Jekyll. Tanto Lanyon quanto Utterson julgam conhecer Jekyll como ninguém e, mesmo que Hastie Lanyon e Henry Jekyll tenham suas divergências científicas, possuem ainda um certo apreço um pelo outro.





Como Charlotte Ahlin menciona em seu post no Bustle, “The (Sort Of) True Story of Dr. Jekyll and Mr. Hyde Is Straight Up Terrifying”, há uma grande possibilidade de Stevenson ter sido fortemente influenciado por duas figuras ao elaborar o dissimulado Dr. Henry Jekyll: Deacon Brodie e Eugene Chantrelle.


Deacon Brodie era uma figura que fascinava o jovem Stevenson, uma vez que sua vida de crimes havia ocorrido no século anterior, entre 1768 e 1788 (ao longo de 20 anos!), com o respeitável Deacon tendo uma próspera carreira na arte de fabricar móveis e instalar fechaduras nas moradas dos mais abastados cidadãos de Edimburgo, na Escócia. E depois ia lá e arrombava as fechaduras para roubar as pessoas que o tinham contratado. Gastar com seus vícios, como apostas e outras areias movediças de dinheiro, só sendo pego ao tentar roubar um escritório de impostos do governo.



A questão da dualidade de Deacon como uma figura respeitável de dia e gatuno à noite pode até ser importante, mas nada supera o impacto da condenação de Eugene Chantrelle, amigo do círculo pessoal de Robert, por assassinar a esposa com veneno.


Os detalhes do julgamento de Chantrelle podem ser vistos aqui, e Ahlin também entra em mais detalhes no seu post, mas basta dizer que Stevenson acompanhou o desenrolar da história e ficou profundamente abalado.


Por isso, ao analisar a história mais a fundo e levando em conta todos os detalhes fornecidos ao longo da narrativa, há apenas uma conclusão a se chegar: Henry Jekyll não era uma boa pessoa para começo de conversa; Mr. Hyde apenas deu o empurrão necessário para que o homem mantivesse sua consciência limpa após cometer atrocidades, uma vez que ele não tinha como ser punido pelos crimes de alguém que “não existia”.



“Às vezes, Henry Jekyll ficava horrorizado frente aos atos de Edward Hyde; mas a situação não estava sujeita às leis comuns, e insidiosamente suavizava o peso na consciência. Afinal de contas, era Hyde, e apenas ele, o culpado.” — O médico e o monstro, “O relato completo de Henry Jekyll sobre o caso”, p.89.


A questão é que, ainda que seu caso pudesse ser enquadrado como Transtorno Dissociativo de Personalidade, não importa se é o “host” do corpo ou um dos seus estados dissociativos que comete uma ofensa: a culpa recai no sistema como um todo e todos arcam com as consequências.


Jekyll delegava a culpa para Hyde, sem querer enxergar o grande problema: Hyde nascera de uma vontade egoísta de praticar atos danosos que ele tentava reprimir, por medo de punição, desde a infância; Hyde era uma invenção diretamente puxada de Jekyll, portanto Hyde era Jekyll.


Não importa o quanto Henry negasse sua parcela de culpa e suas ações condenáveis ao analisar as atrocidades de Edward Hyde; Hyde ainda era ele e ele, Hyde.



“E quando a noite já ia alta, postou-se no canto de um carro fechado e rodou, de um lado para o outro, pelas ruas da cidade. Digo ele – não posso dizer eu. Aquele filho do inferno não tinha nada de humano.” — O médico e o monstro, “O relato completo de Henry Jekyll sobre o caso”, p.99.


No entanto, não foi sempre assim. Dr. Jekyll só passa a enxergar Hyde como algo à parte depois que ele se presencia, passivamente, espancar um homem até a morte, assassinato este que foi testemunhado por alguém que reconhecera a fisionomia de Hyde.


Antes, Jekyll admirava Hyde e o venerava como sua parte mais coerente e livre.

“[...] enquanto eu admirava no espelho aquele horrendo ídolo, percebi que sentia uma tendência a saudá-lo como bem-vindo, em vez de me repugnar. Esse também era eu. Parecia natural e humano. Aos meus olhos, ele tinha uma imagem mais viva de espírito, parecia mais direto e honesto [...]” — O médico e o monstro, “O relato completo de Henry Jekyll sobre o caso”, p.86.



O horror veio, então, apenas quando Jekyll não mais pôde se esconder sob sua bondosa e respeitável máscara pública: quando Edward Hyde, enfim, começou a se manifestar sem ser chamado.


O que, enfim, sela o destino de Henry Jekyll é seu limitado estoque de matéria-prima para poção e a crescente prevalência de Hyde como sua real faceta.


É quando Jekyll está prestes a ser desmascarado que Hyde toma uma atitude quanto à real possibilidade de ser julgado por seus crimes, e Hyde escolhe a morte.


“Os tendões de sua face ainda se moviam com um arremedo de vida, mas a vida tinha-se ido e, pelo frasco quebrado em sua mão e pelo forte cheiro de amêndoas que havia no ar, Utterson soube que estava olhando para o corpo de um suicida.” — O médico e o monstro, “A última noite”, p.66.



Edward Hyde sabia que tinha apenas duas opções: morrer pela forca ou morrer antes de ser pego. Em sua covardia, escolheu a segunda opção, deixando sua confissão para ser lida somente depois que já não pudesse mais estar presente para ver as consequências de suas ações.


No final das contas, não tem nada a ver com distúrbios de saúde mental, repressões sexuais ou religiosidade; como Charlotte coloca em seu artigo:


“Jekyll não é doente ou sexualmente reprimido. Ele é um hipócrita. Ele acha que privilégio e poções podem salvá-lo de ter que assumir responsabilidade por sua violência. Era isso que Fanny e Robert entendiam.”* — Charlotte Ahlin, The (Sort Of) True Story of Dr. Jekyll & Mr. Hyde Is Straight Up Terrifying.



É um livro que aborda covardia, hipocrisia, dissimulação e a dualidade do ser humano, que não é bom nem mau, mas cujas ações podem gerar tanto o bem quanto o mal; só depende do que a pessoa decide fazer com seu livre arbítrio. “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade.” (Sim, usando Isaac Newton como se eu fosse boa em Física...)


Caso esteja curioso: a história já foi adaptada tantas vezes e desde tão perto de sua data de publicação que o próprio Stevenson assistiu a algumas das peças montadas ainda no século XIX.



Também achei curioso que, como ainda não existia o cinematógrafo (ao menos, os irmãos Lumière ainda não o haviam apresentado para o público em geral), Robert usa a expressão “como um rolo de pinturas iluminadas”, já que era o mais próximo de um filme que ele poderia ter como referência nos anos de 1880.


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“Agora, ao largar da pena e selar minha confissão, ponho um fim à vida desse infeliz Henry Jekyll.” — O médico e o monstro, “O relato completo de Henry Jekyll sobre o caso”, p.104.


 

Bibliografia:

AHLIN, Charlotte. The (Sort Of) True Story of Dr. Jekyll & Mr. Hyde Is Straight Up Terrifying. Bustle. Disponível em: https://www.bustle.com/p/is-dr-jekyll-mr-hyde-based-on-a-true-story-theres-a-complicated-terrifying-answer-12235412. Acesso em: 16 nov. 2020.


STEVENSON, R. L. O médico e o monstro. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002.


THE ROBERT LOUIS STEVENSON ARCHIVE. Dramatizations: stage adaptations of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (stage plays, opera, ballet, and radio). Disponível em: http://www.robert-louis-stevenson.org/richard-dury-archive/derivative-works-stage-jekyll-and-hyde.html. Acesso em: 16 nov. 2020.


THE ROBERT LOUIS STEVENSON ARCHIVE. Film Versions of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Disponível em: http://www.robert-louis-stevenson.org/richard-dury-archive/films-rls-jekyll-hyde.html. Acesso em: 16 nov. 2020.


*Tradução livre de: "Jekyll isn't sick or sexually repressed. He's a hypocrite. He thinks privilege and potions can save him from taking responsibility for his violence. That's what Fanny and Robert understood.”

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